terça-feira, 23 de julho de 2013

A Crise, revisitada

Com tantos a opinar sobre a crise – que, de seu número exagerado, tornam impossível que sejam todos doutos e formados em Criseologia – não me sinto de modo algum impedido de fazer o mesmo. É que a Crise também me diz respeito. Sou responsável por ela e ela por mim; temos actualmente uma relação que se fortalece de dia para dia; e gosto de pensar que existe um fascínio mútuo. Todos estes são factores que contribuem para um conhecimento de experiência feito, e para uma análise que espero clara e fértil em epifanias para quem nela tropeçar.

A Crise, essa incompreendida, é a guerra que os povos em paz devem travar. Primeira revelação bombástica, porque assume que o ser humano se incomoda com a indolência, com o ripanço, com o nada-fazer-que-tão-doce-é, e que prefere a refrega, a inconstância e a incerteza, porque estas o aguçam e o predispõem para ir mais além. É por isso que a Crise serve a tantos e está tão presente. Serve aos pobres, que a culpam pela sua situação e a usam como argumento para exigir mais de quem os pode ajudar; serve aos ricos, que com ela se escudam para que não ajudem mais; serve aos trabalhadores, que a empunham no momento das negociações para melhores condições de trabalho, apenas para testemunharem que do outro lado da mesa a mesma Crise se presta a justificar a negação, por parte do patronato, dessas mesmas melhorias; serve aos governos, para justificar o aumento de impostos, e aos governados, para mostrar o garrote que a fiscalidade lhes impõe; e assim por diante. É pau para toda a obra, motivo glosado caleidoscopicamente, moldura omnipresente dos dias de hoje. Dos dias de hoje? Não: de sempre. Como referi antes, é a guerra que os povos em paz devem travar, e isto apenas porque a guerra é ela própria uma forma de Crise, talvez mais dura, porque mais frontal, mas também por isso talvez mais sincera.

Ora, decorre do anterior que, se a Crise é a guerra que os povos em paz devem travar, então surge um corolário quase imediato: é que quanto maior for o estado de paz, quanto mais paz tivermos, então maior será a Crise. Esta é a minha segunda revelação bombástica: sim, abandonai quaisquer veleidades ou ideias românticas. Quanto mais paz houver, quanto mais estivermos afastados do conflito armado, quanto mais tempo ocioso e afastado do confronto brutal e sanguinário passar, mais forte será a Crise e mais permeará as nossas vidas, porque está na natureza do ser humano incomodar-se com o que não muda. Temos sempre que ripostar, alterar, modificar. É a nossa missão, o nosso destino neste mundo – mudar, mudar sempre – e a Crise é a causa, reflexo e consequência dessa mudança. É isso que devemos ser capazes de aceitar, para não cairmos numa espiral de comiseração reflexiva, que em nada contribui para a nossa felicidade ou para a felicidade dos nossos pares. Por isso, teremos que aceitar a Crise se quisermos escapar da guerra.

Mas há uma terceira revelação bombástica nesta coluna: é que a Crise é relativa. A Crise de uns é o paraíso de outros, e vice-versa. Tomo aqui o exemplo de Portugal, praia das Hespérides, paraíso ele mesmo designado há milénios, o sítio onde o mundo acaba e o mar começa. Sim, assumamo-lo sem reservas e sem pejos: esta é a terra prometida, e felizes serão os que dela fizerem morada. Então, porque nos demoramos na contemplação da Crise? Porque dizemos que ela está presente, qual Serpente melíflua, nesta terra abençoada? E mais, como poderemos fazê-lo com propriedade, se tantos sítios no mundo existem onde a vida é efectivamente mais Crítica, onde até a guerra subsiste, sítios onde o mafarrico se espoja e se deleita no sarrazinar das pobres almas que por lá passam? Estas são perguntas de retórica, sem resposta possível para além de dizer que a galinha da vizinha é melhor que a minha, e que embora saibamos ser verdade que é melhor ter um pássaro na mão que dois a voar, tentamos sempre agarrar o segundo. Sim, porque para além de não gostarmos do que não muda, também somos ingratos, também queremos ser expulsos do Éden, e por isso preferimos procurar o mal até no mais alíseo contentamento.

Assumamos, pois, essas nossas imperfeições. Deixemos de procurar a Crise; ela vive connosco, se quisermos viver em paz. Mas deixemos também de a diabolizar; chamemos-lhe por isso outra coisa, se tal for preciso para não deixarmos que nos domine. Chamemos-lhe Vida, por exemplo. Afinal, desde que o mundo é mundo e que o ser humano por ele caminha que se sabe que a Vida é difícil.



segunda-feira, 22 de julho de 2013

O que são os Portugueses


"Nós não somos os gregos, nós não somos os irlandeses, nós não somos os espanhóis, nós não somos os islandeses.... Nós somos outra coisa, infelizmente." - De um post de um amigo no Facebook.

Nós somos portugueses. Somos treinadores de bancada, no futebol e na política. Gostamos de apontar o que está mal, e não o que está bem, porque dá menos trabalho, e porque no fundo, no fundo, sabemos que apontar o que está bem dá trabalho a seguir. Isso quer dizer que somos preguiçosos. Essa preguiça, que muitas vezes mascaramos de desenrascanço e inventividade é que nos define. Nem sequer é uma preguiça constante e assumida, porque "quando vamos para fora trabalhamos mais que eles". É uma preguiça caseira, como a preguiça que temos quando a mãe nos faz o almoço, comemos que nem uns lordes e depois ficamos com sono. Nem nos oferecemos para lavar a loiça. Não somos como os gregos, porque temos uma língua mais bonita. Não somos como os irlandeses, porque temos mais sol. Não somos como os espanhóis, porque o Duque de Alba saiu daqui para esmagar as revoltas Catalãs. Não somos como os islandeses, porque eles ainda são mais primos uns dos outros do que nós. Somos portugueses, e nem sequer parecemos ter orgulho nisso, porque estamos sempre a falar mal uns dos outros. Ah, mas não venha ninguém de fora dizer que somos maus! Isso é que não. Somos uma coisa complexa? não. Somos muito simples: somos birrentos, tacanhos, mesquinhos. Choramos por tudo e por nada - sim, mesmo os homens. Especialmente os homens. Os homens portugueses são mais chorões que as mulheres portuguesas. É dar-lhes um copito a mais e ficam logo a chorar. Pelo Benfica, pelo passado, pelo "ah se fosse de outra maneira". Não há pachorra para tanto. E que tal se deixássemos de ser portugueses? E se acabássemos com Portugal?
O que aconteceria?
Primeiro, teríamos uns quantos a estrebuchar, porque isso não se faz, as nações são coisas importantes, são o garante da cultura, da tradição, e depois dos edifícios legislativos. Mas avancemos na reflexão, sem preguiça (essa coisa tão portuguesa) para ver até onde chegamos. Por acaso a cultura depende das nações? Não existem tantas culturas que não têm qualquer relação com as fronteiras nacionais? Até em Portugal, esse projecto bélico de mercenários medievais, conseguimos apontar microculturas que, por causa de uma garantia mútua de protecção - suponho - se deixaram ligar. E que dizer dos nossos irmãos Espanhóis? Quantas culturas, quantas Espanhas existem na Espanha aqui ao lado? O argumento da cultura não pega. O da língua também não; há nações plurilingues e línguas plurinacionais. O argumento da tradição e dos edifícios legislativos é o mais tenebroso. Se fossemos sempre respeitar a tradição, melhor seria assumirmos um sistema de castas, assumirmos a imobilidade social, assumirmos que cada um é para o que nasce, porque assim sempre foi, desde o início dos tempos (que, já agora, por respeito à tradição, nunca teria acontecido; os tempos sempre teriam estado "lá", nunca iniciando, terrível acontecimento antitradicionalista).
Que outras catástrofes aconteceriam se acabássemos com Portugal?
Melhor: quem, melhor que os Portugueses, poderia acabar com Portugal? E não pense quem lê estas palavras que sugiro um suicídio colectivo, um desaparecer da História. Sugiro antes uma metamorfose completa: do mesmo modo que a lagarta desaparece irrevogavelmente no casulo, ou que o girino perde a cauda. Sugiro que apanhemos todos estes nossos cacos velhos e os nossos resmungos amorfos e nos atiremos de vez para o futuro. Sugiro que demos o exemplo aos outros povos, tão aperreados como nós nestas ideias antigas, bacocas e bolorentas. Sugiro que comecemos a destruir as nações, para criar um mundo novo.
Claro que os poderes instalados não poderão estar de acordo com isto. Nem os que hoje estão à proa das nações, nem os que estão sentados na sombra a manobrar os cordéis dos que nos parecem mandar. Não poderão estar de acordo, porque para eles é vital que tudo permaneça como está; e por isso é ainda mais urgente e faz ainda mais sentido que esta ideia de acabar com Portugal, de o transformar no Cordeiro que será imolado por uma nova ideia de Mundo, seja acarinhada, discutida, levada à luz e, finalmente, posta em prática.
Faria assim sentido esta vontade de não estarmos onde estamos.