segunda-feira, 22 de julho de 2013

O que são os Portugueses


"Nós não somos os gregos, nós não somos os irlandeses, nós não somos os espanhóis, nós não somos os islandeses.... Nós somos outra coisa, infelizmente." - De um post de um amigo no Facebook.

Nós somos portugueses. Somos treinadores de bancada, no futebol e na política. Gostamos de apontar o que está mal, e não o que está bem, porque dá menos trabalho, e porque no fundo, no fundo, sabemos que apontar o que está bem dá trabalho a seguir. Isso quer dizer que somos preguiçosos. Essa preguiça, que muitas vezes mascaramos de desenrascanço e inventividade é que nos define. Nem sequer é uma preguiça constante e assumida, porque "quando vamos para fora trabalhamos mais que eles". É uma preguiça caseira, como a preguiça que temos quando a mãe nos faz o almoço, comemos que nem uns lordes e depois ficamos com sono. Nem nos oferecemos para lavar a loiça. Não somos como os gregos, porque temos uma língua mais bonita. Não somos como os irlandeses, porque temos mais sol. Não somos como os espanhóis, porque o Duque de Alba saiu daqui para esmagar as revoltas Catalãs. Não somos como os islandeses, porque eles ainda são mais primos uns dos outros do que nós. Somos portugueses, e nem sequer parecemos ter orgulho nisso, porque estamos sempre a falar mal uns dos outros. Ah, mas não venha ninguém de fora dizer que somos maus! Isso é que não. Somos uma coisa complexa? não. Somos muito simples: somos birrentos, tacanhos, mesquinhos. Choramos por tudo e por nada - sim, mesmo os homens. Especialmente os homens. Os homens portugueses são mais chorões que as mulheres portuguesas. É dar-lhes um copito a mais e ficam logo a chorar. Pelo Benfica, pelo passado, pelo "ah se fosse de outra maneira". Não há pachorra para tanto. E que tal se deixássemos de ser portugueses? E se acabássemos com Portugal?
O que aconteceria?
Primeiro, teríamos uns quantos a estrebuchar, porque isso não se faz, as nações são coisas importantes, são o garante da cultura, da tradição, e depois dos edifícios legislativos. Mas avancemos na reflexão, sem preguiça (essa coisa tão portuguesa) para ver até onde chegamos. Por acaso a cultura depende das nações? Não existem tantas culturas que não têm qualquer relação com as fronteiras nacionais? Até em Portugal, esse projecto bélico de mercenários medievais, conseguimos apontar microculturas que, por causa de uma garantia mútua de protecção - suponho - se deixaram ligar. E que dizer dos nossos irmãos Espanhóis? Quantas culturas, quantas Espanhas existem na Espanha aqui ao lado? O argumento da cultura não pega. O da língua também não; há nações plurilingues e línguas plurinacionais. O argumento da tradição e dos edifícios legislativos é o mais tenebroso. Se fossemos sempre respeitar a tradição, melhor seria assumirmos um sistema de castas, assumirmos a imobilidade social, assumirmos que cada um é para o que nasce, porque assim sempre foi, desde o início dos tempos (que, já agora, por respeito à tradição, nunca teria acontecido; os tempos sempre teriam estado "lá", nunca iniciando, terrível acontecimento antitradicionalista).
Que outras catástrofes aconteceriam se acabássemos com Portugal?
Melhor: quem, melhor que os Portugueses, poderia acabar com Portugal? E não pense quem lê estas palavras que sugiro um suicídio colectivo, um desaparecer da História. Sugiro antes uma metamorfose completa: do mesmo modo que a lagarta desaparece irrevogavelmente no casulo, ou que o girino perde a cauda. Sugiro que apanhemos todos estes nossos cacos velhos e os nossos resmungos amorfos e nos atiremos de vez para o futuro. Sugiro que demos o exemplo aos outros povos, tão aperreados como nós nestas ideias antigas, bacocas e bolorentas. Sugiro que comecemos a destruir as nações, para criar um mundo novo.
Claro que os poderes instalados não poderão estar de acordo com isto. Nem os que hoje estão à proa das nações, nem os que estão sentados na sombra a manobrar os cordéis dos que nos parecem mandar. Não poderão estar de acordo, porque para eles é vital que tudo permaneça como está; e por isso é ainda mais urgente e faz ainda mais sentido que esta ideia de acabar com Portugal, de o transformar no Cordeiro que será imolado por uma nova ideia de Mundo, seja acarinhada, discutida, levada à luz e, finalmente, posta em prática.
Faria assim sentido esta vontade de não estarmos onde estamos.

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