Com tantos a opinar sobre a crise – que, de seu número exagerado, tornam impossível que sejam todos doutos e formados em Criseologia – não me sinto de modo algum impedido de fazer o mesmo. É que a Crise também me diz respeito. Sou responsável por ela e ela por mim; temos actualmente uma relação que se fortalece de dia para dia; e gosto de pensar que existe um fascínio mútuo. Todos estes são factores que contribuem para um conhecimento de experiência feito, e para uma análise que espero clara e fértil em epifanias para quem nela tropeçar.
A Crise, essa incompreendida, é a guerra que os povos em paz
devem travar. Primeira revelação bombástica, porque assume que o ser humano se incomoda
com a indolência, com o ripanço, com o nada-fazer-que-tão-doce-é, e que prefere
a refrega, a inconstância e a incerteza, porque estas o aguçam e o predispõem
para ir mais além. É por isso que a Crise serve a tantos e está tão presente.
Serve aos pobres, que a culpam pela sua situação e a usam como argumento para
exigir mais de quem os pode ajudar; serve aos ricos, que com ela se escudam para
que não ajudem mais; serve aos trabalhadores, que a empunham no momento das
negociações para melhores condições de trabalho, apenas para testemunharem que
do outro lado da mesa a mesma Crise se presta a justificar a negação, por parte
do patronato, dessas mesmas melhorias; serve aos governos, para justificar o
aumento de impostos, e aos governados, para mostrar o garrote que a fiscalidade
lhes impõe; e assim por diante. É pau para toda a obra, motivo glosado
caleidoscopicamente, moldura omnipresente dos dias de hoje. Dos dias de hoje? Não:
de sempre. Como referi antes, é a guerra que os povos em paz devem travar, e
isto apenas porque a guerra é ela própria uma forma de Crise, talvez mais dura,
porque mais frontal, mas também por isso talvez mais sincera.
Ora, decorre do anterior que, se a Crise é a guerra que os
povos em paz devem travar, então surge um corolário quase imediato: é que
quanto maior for o estado de paz, quanto mais paz tivermos, então maior será a
Crise. Esta é a minha segunda revelação bombástica: sim, abandonai quaisquer
veleidades ou ideias românticas. Quanto mais paz houver, quanto mais estivermos
afastados do conflito armado, quanto mais tempo ocioso e afastado do confronto
brutal e sanguinário passar, mais forte será a Crise e mais permeará as nossas
vidas, porque está na natureza do ser humano incomodar-se com o que
não muda. Temos sempre que ripostar, alterar, modificar. É a nossa missão, o
nosso destino neste mundo – mudar, mudar sempre – e a Crise é a causa, reflexo e
consequência dessa mudança. É isso que devemos ser capazes de aceitar, para não
cairmos numa espiral de comiseração reflexiva, que em nada contribui para a
nossa felicidade ou para a felicidade dos nossos pares. Por isso, teremos que
aceitar a Crise se quisermos escapar da guerra.
Mas há uma terceira revelação bombástica nesta coluna: é que
a Crise é relativa. A Crise de uns é o paraíso de outros, e vice-versa. Tomo
aqui o exemplo de Portugal, praia das Hespérides, paraíso ele mesmo designado
há milénios, o sítio onde o mundo acaba e o mar começa. Sim, assumamo-lo sem
reservas e sem pejos: esta é a terra prometida, e felizes serão os que dela
fizerem morada. Então, porque nos demoramos na contemplação da Crise? Porque
dizemos que ela está presente, qual Serpente melíflua, nesta terra abençoada? E
mais, como poderemos fazê-lo com propriedade, se tantos sítios no mundo existem
onde a vida é efectivamente mais Crítica, onde até a guerra subsiste, sítios
onde o mafarrico se espoja e se deleita no sarrazinar das pobres almas que por
lá passam? Estas são perguntas de retórica, sem resposta possível para além de
dizer que a galinha da vizinha é melhor que a minha, e que embora saibamos ser
verdade que é melhor ter um pássaro na mão que dois a voar, tentamos sempre
agarrar o segundo. Sim, porque para além de não gostarmos do que não muda,
também somos ingratos, também queremos ser expulsos do Éden, e por isso
preferimos procurar o mal até no mais alíseo contentamento.
Assumamos, pois, essas nossas imperfeições. Deixemos de
procurar a Crise; ela vive connosco, se quisermos viver em paz. Mas deixemos
também de a diabolizar; chamemos-lhe por isso outra coisa, se tal for preciso
para não deixarmos que nos domine. Chamemos-lhe Vida, por exemplo. Afinal,
desde que o mundo é mundo e que o ser humano por ele caminha que se sabe que a Vida é difícil.
Sem comentários :
Enviar um comentário